Sim, sou bipolar, e daí?

Sim, sou bipolar, e daí? No final do anos de 1996, no dia 18 de novembro para ser mais exato, eu entrava em um grupo de NA por não aguentar sofrer mais. Depois de décadas usando as mais variadas drogas, sem conseguir parar de usar por conta própria e após uma tentativa frustrada de internação um ano antes, eu finalmente havia conseguido parar de usar drogas.

Até aí estava tudo muito bem. Minha vida, apesar de difícil, ia melhorando a cada dia limpo. Entretanto, com dois anos limpo minha recuperação empacou. Continuava tendo surtos de raiva, ficava noites e noites acordado, e quando amanhecia eu chorava copiosamente sem ter motivo algum. Percebi que algo não funcionava bem. Não podia ir à padaria comprar pão sem arrumar uma confusão no percurso, às vezes brigas sérias com direito a socos pontapés e pauladas. Eu era uma bomba relógio ambulante.

A pessoa com que eu era casado à época vivia tentando me acalmar e eu não entendia direito pois vivi minha vida inteira deste jeito e agora, sem as drogas eu começava a perceber que eu não agia como as outras pessoas.

Pesquisa

Pesquisei sobre o meu comportamento na internet e identifiquei alguns padrões como os de portadores de TDAH. Comecei a me preocupar e achar que poderia ter algum outro problema associado à minha dependência química e isto me deu medo, afinal de contas eu conhecia bem de perto o mundo das doenças mentais, pois quando criança andava com minha avó por dentro da Colônia Juliano Moreira, que era um gigantesco complexo manicomial, tão grande que hoje é um sub-bairro de Jacarepaguá no Rio de Janeiro.

Eu passeava com ela em meio a esquizofrênicos que se masturbavam no meio da rua, corriam de um lado para o outro e falavam sozinhos perdidos em suas alucinações. Ela era lavadeira e alguns dos parentes dos pacientes a pagavam para que lavasse as roupas deles e quando ela ia buscar as roupas sujas ou levar as lavadas e passadas, eu ia junto.

Resumindo, fiquei com medo com a possibilidade de ser “louco”, ter que tomar remédios pesados ou chegar ao ponto de perder o controle e ter que passar por uma internação. Claro, eu tinha que exagerar, afinal de contas sou adicto e tenho tendência a supervalorizar meus problemas.

Ao final de alguns meses de pesquisas na internet, me convenci que era realmente portador de TDAH e com muito receio agendei uma consulta com um Psiquiatra.

Primeira Consulta

Cheguei cedo e muito apreensivo. Extremamente ansioso, andava de um lado para o outro fumando incessantemente (ainda fumava, hoje não fumo há pelo menos sete anos). Depois de muito esperar fui chamado. O médico me deu um questionário com várias páginas e inúmeras perguntas. No cabeçalho da primeira página dizia que eu deveria ser o mais honesto que pudesse nas respostas e assim eu o fiz.

Ao terminar entreguei ao Psiquiatra que leu tudo atentamente, demorando vários minutos, que para mim pareciam intermináveis. Quando ele acabou a leitura, virou-se para mim e perguntou em que poderia me ajudar. Eu respondi contando minha história, minhas preocupações e que achava que tinha TDAH.

Bem depois de mais algumas perguntas ele me pré-diagnosticou como portador de transtorno bipolar. Pronto, minha vida acabou naquele momento e eu não gostei do que ele estava falando. Saí do consultório com uma receita para  alguns remédios, agendei outra consulta para dali a um mês e fui embora deprimido.

E foi assim o começo de minha relação com o Transtorno Bipolar. Hoje continuo limpo (farei 21 anos no dia 18 de dezembro) e não fumo mais. Estou empregado, sou gestor de uma unidade de saúde além de assessor de uma Diretora da empresa em que trabalho.Tomo minha medicação todos os dias e não tenho crises há mais de um ano. Me sinto bem feliz, por enquanto e espero continuar assim por bastante tempo.

 

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